sexta-feira, 22 de maio de 2009

Dois corpos, uma alma

O post de terça, C.

12h45min AM. Domingo.

Ela entra no táxi, deseja boa noite as pessoas que deixa, senta-se no banco de trás e sem olhar para o motorista, que esperava já incomodado pela demora da moça, diz:

- Centro, por favor.

O que aquela garota com cara de criança perdida, mas com ar de decidida queria fazer no centro de Porto Alegre, aquele horário, em um domingo frio, certamente foi o que passou pela cabeça do motorista durante todo o trajeto. Mas o cliente tem sempre razão e ele não estava ali para questionar e sim dirigir. E o fez, tão depressa que ela nem teve tempo de ponderar se aquela era a decisão certa, não teve tempo de se arrepender, nem de pensar no que ia falar ou como ia agir.

15 minutos depois, lá estava ela, parada em frente a um prédio de aparência não muito agradável em meio ao centro da cidade, frio e solitário, afinal quem além dela estaria caminhando numa noite como aquela? Não havia mendigos por ali, nem bares abertos com homens nojentos dando gargalhadas altas e sem sentindo enquanto enchiam a cara para esquecer-se da decadência da vida urbana ao fim de noite. Ela nem se quer avistou mulheres com roupas curtas e bolsas grandes, nem faróis altos, nem luzes pelas janelas entreabertas. Era uma noite em tom de cinza, na qual o vento assoviava por entre os grandes prédios e antes que ela pudesse guardar o celular de volta no bolso a porta se abriu, e ele deu-lhe aquele sorriso de canto costumeiro e puxou a porta, mostrando-lhe o corredor, para que ela finalmente pudesse entrar.

- O elevador está em manutenção, vamos ter que subir as escadas. Ele disse.

Ela sorriu meio sem jeito enquanto um sentimento de dúvida a fazia sentir seu corpo cada vez mais pesado à medida que os lances de escadas a aproximavam mais do apartamento no qual havia saído horas atrás. Horas atrás havia tantas pessoas naquele ambiente, e agora seriam só eles, não haveria mais conversas banais e risadas após cada piada contada, mesmo que ela não achasse graça de nenhuma, não haveria mais sutilezas, nem gentilezas, afinal, eram eles, enfim sós, enfim juntos, depois de tanto tempo. Tanto tempo, tolice ela pensar daquela forma, a semana fora corrida, mas eles se viram algumas vezes por entre tardes de trabalhos e noites de não-estudo, foram relances, meias palavras, mas ainda assim não era tempo o suficiente para que ela pudesse sentir saudades, ou pelo menos não deveria.

Ele colocou a chave na porta, virou, abriu, fechou e delicadamente pegou o casaco dela assim que pode se desvencilhar das chaves, perguntou se ela queria beber algo, tentou ser gentil enquanto tentava não olhar diretamente nos olhos dela, sabia que não seria mais tão mecânico e programado se o fizesse, pois sempre se perdia naqueles olhos, sempre se desarmava, mas naquela noite não, havia pensado em tudo e não ia fugir de seus planos.

Abriu um vinho, o clima estava propicio para a bebida.

Ela ainda estava parada no mesmo lugar, sua cabeça estava dando mil voltas e ela não conseguia parar de se perguntar por que tinha ido até lá, sentiu as mão dele como se houvessem atravessado seu corpo quando ele levemente pegou seu casaco, disse sim para a bebida, mesmo sem sede, para ter tempo de respirar e encarnar a personagem, indiferente a ele, como ela gostava de fingir ser, como se ele não a abalasse. Ela olhou para a cama, aquela cama na qual já tinham passado várias noites juntos...

- Ainda em pé?

- Por educação te esperei voltar.

Aquele ar onipotente dele. Aquela arrogância dela. Sentaram-se, não estavam lá para relembrar tudo que irritava um no outro. Conversaram bobagens, ambos fingindo se importar em como havia sido a semana do outro, em como estavam os estudos, os projetos, as famílias. Duas horas se passaram e eles ainda se mantinham distantes, indiferentes, patéticos. Ele notando como ela tinha mudado, parecia mais forte do que nunca, mais centrada, menos doce (ao menos com ele), reparava no cabelo dela que já não era mais comprido como na semana passada, e pensava em como ele a queria de novo, de volta, pra ele, só dele. Ela notando o modo como ele estava mais seguro, menos apaixonado (mas não menos apaixonante), reparava no cabelo dele, agora escuro, em como o seu corpo estava mais definido, em como ele estava longe, mesmo perto. Nenhum deles conseguia falar algo relevante sem parecer bobo.

Silêncio.

O mais cruel e cortante silêncio. Ela até pode ouvir seu coração bater durante aqueles segundos de verdades não ditas. Ele sentiu como se não pudesse mais manter aquela mentira, aquela indiferença, aquela situação lamentável, e finalmente quebrou aquela cena ridícula...

- Então é isso? Vinho, cigarros e meia dúzia de palavras? Veio até aqui pra me dizer que a tua vida anda bem, que foi ao cinema ontem, que se divertiu com as gurias?

Aquilo foi uma facada. O ar faltou aos seus pulmões e ela sentiu-se a mais idiota das “menininhas” da vida dele, tão fútil com seu sábado a noite de janta no Mc’ e cinema com as amigas.

- É, não, bem... Um vinhozinho em uma noite de frio não é lá uma má pedida!

Ele odiou cada palavra dela, quis jogar-lhe o vinho na cara e mandá-la embora naquele exato momento, mas era educado demais para tal ato. Simplesmente riu balançando a cabeça. Sentou mais perto, olhou no fundo dos olhos dela e exclamou:

- Tu nunca largou o que estava fazendo e veio até aqui no meio da noite, nunca!

Ela não pode evitar, estavam tão perto um do outro, ela podia sentir a respiração dele, poderia tocá-lo sem esforço algum, aquela meia luz do lugar, aquele perfume amadeirado, aqueles olhos, ela ignorou sua atuação pífia e infeliz e tentou beijá-lo. Os lábios mal se tocaram e ele foi para trás. A facada agora foi profunda, ela sentiu o sangue escorrendo até a última gota.

- Eu não posso, não quero. Não sem saber por que tu veio, hoje, assim...

Ela não respondeu, estava inerte com a situação, paralisada com o questionamento, pensando em inúmeras respostas vagas e mentirosas. Ele não pode suportar mais um silêncio dela, levantou-se, abriu o roupeiro, pegou algumas cobertas e colocou sobre o sofá cama que ficava no canto da peça.

- Sinta-se em casa, já está tarde, vou dormir. Boa noite.

Deitou-se na cama deixando-a ali, sentada no sofá, sozinha. Ela levantou, pegou um cobertor, começou a arrumar o lugar onde iria passar a noite, pensou em ir embora, mas lembrou-se de que a mãe estava em casa e ela não saberia o que dizer por voltar assim, sem mais nem menos, da “casa da Roberta”. Foi ao banheiro, lavou o rosto, tirou a maquiagem e foi como se tirasse a máscara que tentava ostentar, desistiu da dúvida e optou pela certeza. Chega desse jogo, eu desisto. Voltou ao quarto-entesala-sala do JK, sentou se na beirada da cama dele e disse tudo que estava apertando seu peito, confundindo sua cabeça, tudo que ela guardou durante tanto tempo. Nenhuma meia verdade, nenhuma hesitação, nenhum medo. Ela simplesmente foi falando todas as coisas que foram deixadas para trás, todos os sentimentos esquecidos, tudo que ela precisava falar. Tudo que ele esperou tanto para ouvir. Tudo que eles esconderam um do outro. TUDO.

- Eu aprendi a gostar de outras pessoas, consegui te esquecer sabe... O tempo cura as feridas.

Ele disse docemente tentando consolá-la enquanto lagrimas escorriam pela face dela sem controle. Mas ele não podia evitar a amou de uma maneira doentia no passado, ele sofreu calado por muito tempo enquanto ela curtia sua liberdade. E agora ela estava ali, falando tudo que ele sempre quis ouvir, tudo que ele nunca teve coragem de dizer quando ela pôs um fim ao relacionamento deles. Ele não pode evitar, não conseguia mais fingir indiferença, sentiu-se o mais covarde dos homens por não ter dito que compartilhava de todos aqueles sentimentos atormentadores dela, se arrependeu do que acabara de dizer e antes que ela pudesse responder a beijou, e beijou novamente. Foram beijos desesperados, lábios que se completavam, línguas saudosas, corpos ardentes.

Mais nada foi dito, ela deitou-se junto a ele, naquela cama, na qual já haviam passado tantas noites juntos, na qual seus corpos já haviam se tornando um tantas vezes, cama que ainda tinha o cheiro do suor deles. Ele a tocava com cuidado e destreza, queria sentir cada parte do seu corpo, ela o tacava com carinho e firmeza, precisava ter certeza de que ele estava ali, que ela não iria acordar em sua casa, em sua cama, sozinha.

Era domingo, uma noite em tons de cinza. Ele a abraçou firme e forte. Por uma hora eles permaneceram ali, só se olhando, mergulhando no infinito de cores que pareciam acabar de descobrir entre seus olhos. Eles se amaram, não foi como no passado, aquela coisa enlouquecedora cheia de conversas, de gemidos, de corpos suando... Só amaram um ao outro, amaram seus olhares, seus toques, seus desejos, suas verdades, seus prazeres. Naquela noite eram apenas eles, sem fingimentos, sem remorsos, sem porquês e porens. Adormeceram ali, abraçados.

9h AM. Segunda-feira.

Ela acordou com o despertador tocando. Abriu os olhos lentamente e pode vê-lo dormindo por alguns instantes antes que ele também acordasse. A cumplicidade deles era invejável. Ainda estavam abraçados, pernas entrelaçadas e olhos que pareciam não se desvencilhar. O sol que entrava por entre as frestas da persiana da janela dava vida aqueles corpos inertes e entregues sobre a cama.

- Tenho que levantar e ir pro trabalho. Disse ela enquanto se aconchegava no peito dele. Ele sorriu e a beijou levemente.

Era segunda-feira e ela só trabalhava à tarde, como todas as segundas, mas naquela manhã ela realmente queria chegar cedo ao trabalho, aproveitar o dia e ficar lembrando-se da noite. Foi se arrumar enquanto ele fazia café. Ficaram com aquelas caras de bobos até o momento em que ela saiu do apartamento, com aquele último beijo e os votos de bom trabalho.

- Comporte-se moçinha.

Ele não poderia deixá-la sair sem falar nada, sem usar aquele ar prepotente que tanto a irritava.

- Eu sempre me comporto meu bem.

Ela não podia sair dali sem aquele sorriso sarcástico de que ele tanto tinha gana.

O centro agora estava movimentado, havia muitas cores, muitas pessoas, os pulmões dela estavam cheios, as feridas estavam todas ali, abertas, sem sangrar, mas ali, vivas. Ela não podia evitar a cara de felicidade. Não por tudo que houve naquela noite, mas por tudo que ela enfim disse a ele, por todos os silêncios de verdade subentendidas dele, por todos os segredos confessados, por todo o peso do qual haviam se livrado.

Era só um domingo cinzento, foi só uma segunda-feira plena.

E agora eles vão continuar se vendo entre os intervalos de trabalho e as noites de não-estudos, e vão continuar fingindo indiferença, ainda vão odiar as pequenas coisas e sorrir de canto e que saber? Eles ficarão bem, por que durante algumas horas foram só eles. Enfim sós, enfim juntos.

(de novo)

-
Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!

Um comentário:

  1. Moça, nem me lembro como despenquei no teu blog.
    Mas fiquei encantada com tuas palavras...Realmente você escreve muito bem!
    Uma história profunda e tocante...

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