domingo, 30 de agosto de 2009

Duas mentes, um coração

A Despedida.


Domingo, madrugada.

Seria coincidência demais até os dias serem os mesmos, ela ponderaria escrever isto hoje, se acreditasse em coincidências, mas não acredita. Agosto está no fim e a primavera vai reinar no mês que está por vir, e por muitas outras razões ela comemoraria tal fato. Mas este ano não, este ano ela felicita a chegada das datas com hipocrisia. Amanhã será segunda-feira, dia 31, e ele irá partir no que ela, egoísta-mente, poderia definir como “excitante conquista inóspita”.

Ele irá partir, com data e horário certo. E ela nem se despediu como gostaria.

Passou os últimos dias bolando um presente, uma recordação deles, para que ele levasse consigo. Inútil, era de se esperar que ele fosse saber do que se tratava, já que nada parece ser segredo entre esses relacionamentos controladores de amizades leais que ambos tinham em comum. Ainda assim, ela tinha esperança, esta por sua vez regada por um dos pequenos anjos da guarda autodestrutivos dos dois, que lhe telefonara com algo empolgante...


- Ele ligou, quer saber se tu estarás lá na quinta...


Tal quinta-feira a esta altura já havia se passado, e não fora nem por um segundo algo perto das coisas que ela esperava. Mas também não fugiu tanto do que ela havia imaginado entre tantas hipóteses cheias de incógnitas que cercavam os dois dentro da mente dela. Por um lado ficou chateada, por outro aliviada. Afinal as coisas poderiam ser bem mais difíceis para eles se ela não tivesse dito que estava apaixonada por outra pessoa na última vez que se falaram.Outra pessoa? A mesma pessoa a quem ela já dissera que não gostava de se envolver muito e que amizade era o suficiente para que vivessem bem, pois jamais superou aquele primeiro amor. Primeiro amor? Ele, sem dúvida alguma.

Ela jamais estaria apaixonada por outra pessoa, tinha um mundo vasto de experiências a sua espera ainda, e não cometeria a tolice de se amarrar a outra pessoa que não fosse ele.


De certo que em algumas noites ela nem pensa, simplesmente vive, se envolve, conquista e volta ao seu mundo. Sem pensar nele, sem culpa, sem ressentimentos, no frigir dos ovos ninguém deve nada a ninguém mesmo. Mas ela, diferentemente dele, sempre se guardou. Ela nunca quis aquela intimidade cega, aquele desespero de posse, aquele jogo dos amantes. Ela só queria estar bem, em todos os aspectos, e pra que isso um dia desse certo cometeu o maior ato, na cabeça dela, de amor que podia naquela época: libertação. Hoje, ela sabe que não foi algo altruísta, nem uma prova de amor, nem qualquer colocação boba e apaixonada que poderá pensar, na verdade fora apenas o maior ato de medo do qual já teve conhecimento.

Ela teve medo de não o amar na mesma intensidade, de não ser mais a filha que sua mãe sonhou, medo de desapontar as pessoas que pra ela eram importantes, medo de correr grandes riscos.


Com tantos medos, esqueceu de ser honesta com ela mesma.


Mas os tempos mudaram, e ela cresceu um bocado, mesmo sem ele, mas por causa dele. Hoje ela sabe que o amor na mesma ou em maior intensidade. Sabe também que quem lhe repreendia só estava tentando lhe proteger e que às vezes filhos não precisam de proteção e sim de apoio, mas que se ainda assim sua mãe não puder apoiá-la, ela deve seguir em frente, pois os filhos não são iguais aos pais e isso não faz deles menos dignos de orgulho. Aprendeu que as pessoas que a amam não a amam pelas escolhas que faz e sim por quem ela é, e sendo assim não desapontaria ninguém que realmente fosse importante. Depois de tanto tempo e novos aprendizados, os riscos, hoje, olhando para trás, não lhe parecem tão grandes.


Amanhã ele vai embarcar naquele avião, com destino a outro continente, a uma nova vida, novas pessoas, novos amigos, novos amores. E ela vai estar feliz por ele, torcendo por ele como sempre fez mesmo de longe, mesmo quando o longe era mais perto. Vai sentir falta da voz ao telefone às vezes, das poucas palavras que trocavam entre os corredores e aulas, da presença dele ali, intocável como ela gostava de pensar.

Na segunda-feira as vidas deles vão tomar destinos completamente opostos e quer saber? Ambos ficarão bem e se merecerem serão muitos felizes durante o próximo ano.


Mas sabe qual é a parte mais bacana dessa história?

É que com sorte, ele vai ter lido estas poucas palavras que ela escreveu, pois não pode dizer. Vai saber que a vida dela mudou por que teve a sorte de tê-lo conhecido, vai saber que ela sofreu bastante com as escolhas que fez, mas que não se arrepende delas, mesmo as erradas. Com sorte ele vai lembrar-se dela às vezes, só às vezes, e que vai sorrir quando estes raros momentos lhe vierem à mente por saber que algum dia ele salvou a vida de uma garota quando segurou sua mão inúmeras vezes. E que por causa dele, ela hoje é alguém melhor. Mais honesta consigo mesma. Mais humana. Porém, não menos apaixonada.


-


"Depois de todas as tempestades e naufrágios

o que fica de mim e em mim é cada vez mais essesncial e verdadeiro"

Caio Fernando Abreu.

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